O Tempo do Natal nos recorda, dentre tantos simbolismos, a Família de Nazaré, modelo para as famílias da atualidade. Espelhando-nos em Jesus, Maria e José queremos trazer presente um trecho da Exortação Apostólica sobre a família, escrita pelo papa Francisco, fruto do último Sínodo dos Bispos: Amoris Laetitia. A reflexão está nos números 136 a 141. As atitudes citadas de cultivo diário e constante também valem para as Casas Religiosas, onde vivem as pessoas de vida consagrada.

 

O diálogo é uma modalidade privilegiada e indispensável para viver, exprimir e amadurecer o amor na vida matrimonial e familiar. Mas requer uma longa e diligente aprendizagem. Homens e mulheres, adultos e jovens têm maneiras diversas de comunicar, usam linguagens diferentes, regem-se por códigos distintos. O modo de perguntar, a forma de responder, o tom usado, o momento escolhido e muitos outros fatores podem condicionar a comunicação. Além disso, é sempre necessário cultivar algumas atitudes que são expressão de amor e tornam possível o diálogo autêntico:

 

Reservar tempo, tempo de qualidade, que permita escutar, com paciência e atenção, até que o outro tenha manifestado tudo o que precisava comunicar. Isto requer a ascese de não começar a falar antes do momento apropriado. Em vez de começar a dar opiniões ou conselhos, é preciso assegurar-se de ter escutado tudo o que o outro tem necessidade de dizer. Isto implica fazer silêncio interior para escutar sem ruídos no coração e na mente: despojar-se das pressas, pôr de lado as próprias necessidades e urgências, dar espaço. Muitas vezes um dos cônjuges não precisa duma solução para os seus problemas, mas de ser ouvido. Tem de sentir que se apreendeu a sua mágoa, a sua desilusão, o seu medo, a sua ira, a sua esperança, o seu sonho. Todavia é frequente ouvir estas queixas: “Não me ouve. E quando parece que o faz, na realidade está pensando em outra coisa”. “Falo-lhe e tenho a sensação de que está à espera que acabe logo”. “Quando lhe falo, tenta mudar de assunto ou me dá respostas rápidas para encerrar a conversa”.

 

Desenvolver o hábito de dar real importância ao outro. Trata-se de dar valor à sua pessoa, reconhecer que tem direito de existir, pensar de maneira autônoma e ser feliz. É preciso nunca subestimar aquilo que diz ou reivindica, ainda que seja necessário exprimir o meu ponto de vista. A tudo isto subjaz a convicção de que todos têm algo para dar, pois têm outra experiência da vida, olham de outro ponto de vista, desenvolveram outras preocupações e possuem outras capacidades e intuições. É possível reconhecer a verdade do outro, a importância das suas preocupações mais profundas e a motivação de fundo do que diz, inclusive das palavras agressivas. Para isso, é preciso colocar-se no seu lugar e interpretar a profundidade do seu coração, individuar o que o apaixona, e tomar essa paixão como ponto de partida para aprofundar o diálogo.

 

Amplitude mental, para não se encerrar obsessivamente numas poucas ideias, e flexibilidade para poder modificar ou completar as próprias opiniões. É possível que, do meu pensamento e do pensamento do outro, possa surgir uma nova síntese que nos enriqueça a ambos. A unidade, a que temos de aspirar, não é uniformidade, mas uma “unidade na diversidade” ou uma “diversidade reconciliada”. Neste estilo enriquecedor de comunhão fraterna, seres diferentes encontram-se, respeitam-se e apreciam-se, mas mantendo distintos matizes e acentos que enriquecem o bem comum. Temos de nos libertar da obrigação de ser iguais. Também é necessária sagacidade para advertir a tempo eventuais “interferências”, a fim de que não destruam um processo de diálogo. Por exemplo, reconhecer os maus sentimentos que poderiam surgir e relativizá-los, para não prejudicarem a comunicação. É importante a capacidade de expressar aquilo que se sente, sem ferir; utilizar uma linguagem e um modo de falar que possam ser mais facilmente aceites ou tolerados pelo outro, embora o conteúdo seja exigente; expor as próprias críticas, mas sem descarregar a ira como uma forma de vingança, e evitar uma linguagem moralizante que procure apenas agredir, ironizar, culpabilizar, ferir. Há tantas discussões no casal que não são por questões muito graves; às vezes trata-se de pequenas coisas, pouco relevantes, mas o que altera os ânimos é o modo de as dizer ou a atitude que se assume no diálogo.

 

Ter gestos de solicitude pelo outro e demonstrações de carinho. O amor supera as piores barreiras. Quando se pode amar alguém ou quando nos sentimos amados por essa pessoa, conseguimos entender melhor o que ela quer exprimir e fazer-nos compreender. É preciso superar a fragilidade que nos leva a temer o outro como se fosse um “concorrente”. É muito importante fundar a própria segurança em opções profundas, convicções e valores, e não no desejo de ganhar uma discussão ou no fato de nos darem razão.

 

Por último, reconheçamos que, para ser profícuo o diálogo, é preciso ter algo para se dizer; e isto requer uma riqueza interior que se alimenta com a leitura, a reflexão pessoal, a oração e a abertura à sociedade. Caso contrário, a conversa torna-se aborrecida e inconsistente. Quando cada um dos cônjuges não cultiva o próprio espírito e não há uma variedade de relações com outras pessoas, a vida familiar torna-se endogâmica e o diálogo fica empobrecido.

Pe. Juarez Albino Destro, rcj
Sup. Prov.




Não deixemos que nos roubem a comunidade!
Na Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho) o papa Francisco exorta ministros ordenados, pessoas de vida consagrada, c...

IPV: reforçando a intercongregacionalidade na dimensão vocacional
O Instituto de Pastoral Vocacional (IPV), de "cara" ou logomarca nova, dentro das celebrações de seus 20 a...

Priorizar a Missão
O papa Francisco, ainda Cardeal Bergoglio, afirma a necessidade de a Igreja “sair de si mesma e ir para as perifer...

O Pacto das Catacumbas
Alguns dias após a festa da Assunção de Nossa Senhora recebi uma carta redigida por três bisp...

“Permanece conosco! Permanece, Senhor, no meio de nós!”
O refrão do hino oficial da 23ª Assembleia Geral Eletiva (AGE) da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB), realiza...

Santo Aníbal, nosso santo da oração e da ação vocacional
Em 1º de junho celebramos a Solenidade de santo Aníbal Maria Di Francia (05/07/1851-1º/06/1927). Não é qualquer s...

As redes sociais são os novos espaços de evangelização
 Uma das últimas mensagens do então papa Bento XVI foi assinada no dia 24 de janeiro de 2013, Festa...

Vocação, sinal da esperança baseada na fé
Eis o tema da mensagem para o Dia Mundial de Oração pelas Vocações, neste ano celebrado em 21 de abril...

Um novo pastor, um novo bispo de Roma
Dia 13 de março de 2013 torna-se uma data histórica para a Igreja Católica, especialmente para nós, católicos do co...

Bento XVI
A mídia, desde o dia 10 de fevereiro de 2013, está noticiando a "renúncia do papa", passando-nos muitas informaçõ...

Novo Ano, nova Composição de Comunidades, novos desafios e perspectivas
2013 chega com novidades, e não poderia ser diferente. A cada novo ano as esperanças são renovadas, os desafios – n...

Tempo de espera pelo Natal!
"O povo que andava na escuridão viu uma grande luz [...].Nasceu para nós um menino, foi-nos dado um filho;ele traz aos...




« anterior [1][2] 3 [4][5] próxima »