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Muitos lugares para aprender
REFLEXÃO: Como um projeto de ações complementares pode contribuir para o desenvolvimento social mais amplo da criança e do adolescente?
A partir da leitura de variados textos apresentados, da prática como consultora pedagógica de projetos de parceria ONGs e escolas públicas, voltados para ações complementares e considerando alguns pressupostos apontados pelo educador Antonio Carlos Gomes da Costa – A Educação no Paradigma do Desenvolvimento Humano, teço as seguintes reflexões:
Segundo o filósofo espanhol Ortega y Gasset: “O homem é ele mesmo, o seu potencial e suas circunstâncias”.
Antonio Carlos G. Da Costa complementa a afirmação, esclarecendo que as circunstâncias deveriam ser provedoras de oportunidades para que crianças, adolescentes e jovens desenvolvam suas potencialidades, pois o potencial de uma pessoa pode ser inibido ou estimulado pelo contexto familiar e grupal, educacional, ambiental, econômico, social, político e cultural onde está inserido.
Entende que as circunstâncias de uma criança e de um adolescente são: a família, a escola e a comunidade que deveriam juntas conspirar para o desenvolvimento humano das novas gerações.
Comunidade definida como o espaço entre a família e a escola, de ir e vir, de estar, de permanecer, mas também, podendo ser um ambiente educativo, aquele que deverá exercer deliberadamente uma influência construtiva sobre o outro, as crianças e os adolescentes.
Unir família, escola e comunidade resulta no conceito de Comunidade Educativa, que estabelecem objetivos coesos, a médio e longo prazo, de desenvolver conhecimentos, atitudes, valores e habilidades. Com constância de propósitos e pessoas que desenvolvem diferentes ações e que compartilham as mesmas motivações.
Antonio Carlos G. da Costa, acaba ampliando o pensamento de Ortega y Gasset: “O homem é ele mesmo, seu potencial, suas circunstâncias e o potencial de suas circunstâncias”.
Reafirma que para desenvolver as suas potencialidades, o ser humano precisa de oportunidades e as mais importantes para o seu desenvolvimento pessoal e social, são as oportunidades educativas.
Nessa perspectiva, podemos entender o papel das ações complementares na vida das crianças e adolescentes e o quanto os programas sociais/ ONGs acabam perdendo o caráter assistencialista e passam a ser programas comprometidos com a educação, espaços educativos que, cada vez mais, buscam potencializar a esfera dessa circunstância, oferecendo mais uma oportunidade educativa na vida dos seus educandos.
Acredito que um projeto de ação complementar deve ser concebido como um investimento no desenvolvimento de todas as potencialidades emocionais, físicas, sociais e cognitivas, de modo a permitir à criança e ao adolescente:
- um olhar crítico sobre a realidade;
- o melhor domínio da língua;
- a compreensão dos pressupostos básicos da ciência;
- a vivência e a valorização da cultura e da arte;
- o acesso aos recursos tecnológicos;
- a prática de esportes;
- o usufruto do tempo para o lazer;
- a aplicação de todos os saberes ao mundo da vida.
Os Sete Códigos da Modernidade, do educador José Bernardo Toro, referenda e complementa esse conceito, na busca de uma educação integral de qualidade.
Um projeto de ação complementar pode oferecer: atividades culturais, artistas e esportivas, de acompanhamento escolar (leitura e escrita), de recreação, lazer, reflexão sobre questões de sexualidade, saúde, meio ambiente, protagonismo juvenil etc., assegurando o desenvolvimento integral dos educandos, incentivando e melhorando a sua relação com a escola e a família. Preparando-os para uma adequada inserção social e favorecendo as mesmas oportunidades de desenvolvimento para todos – princípio básico da vida democrática.
Deve criar espaços e condições para que os jovens possam incorporar valores que o preparem para a autonomia e tomada de decisões, para que possam atuar através do protagonismo juvenil, com liberdade, iniciativa e compromisso social e desenvolver as competências e habilidades necessárias para viver numa sociedade globalizada e transformada pela constante inovação tecnológica.
Seu objetivo maior deve ser o de formar o jovem autônomo (capaz de tomar decisões), solidário (capaz de atuar positivamente para o bem-comum) e competente. Formá-lo como pessoa, como cidadão e como profissional (Antonio Carlos G. Da Costa).
Falar da contribuição de um projeto de ações complementares para o desenvolvimento social mais amplo da criança e do adolescente implica, entre outras coisas, destacar que:
- a articulação das ações da ONG, Escola e Família deve ser potencializada para que todos somem esforços para uma ação mais rica e efetiva no processo de formação integral dos educandos envolvidos no projeto;
- ONG e Escola podem desenvolver um trabalho de parceria e complementação, voltadas para objetivos comuns: o desenvolvimento das potencialidades e capacidades dos educandos, fazendo uma opção em termos de referencial teórico de suas ações – UNESCO - Relatório Jaques Delors – Quatro Pilares da Educação.
- em relação aos Quatro Pilares, planejar atividades específicas e dinâmicas para desenvolver cada uma das habilidades referentes a cada um dos Pilares;
- a centralidade da ação educacional da escola deve ser constantemente reafirmada, mostrando-se que a ação complementar pretende enriquecê-la e complementá-la;
- ONG e escola devem enxergar a possibilidade de construção de projetos comuns e/ou ações que tenham princípios comuns de trabalho, integrando as áreas de conhecimento e fazendo a opção por uma metodologia de projetos pedagógicos, em ambas as instituições;
- além do trabalho conjunto com as escolas, a ONG deve viabilizar ações envolvendo as famílias e mais do que isso, conhecer essas famílias, saber como vivem, seus valores e crenças e comprometê-las com essa ação educativa que visa a melhoria efetiva das condições de vida e de aprendizagem dos educandos.
- “as reflexões promovidas devem possibilitar aos educadores comparar o próprio desempenho à superação de barreiras, ao desenvolvimento de novas habilidades e atitudes, reconhecer seus limites e potencialidades, ouvir e se expressar e registrar seus progressos e dificuldades”.
- todos educadores envolvidos no projeto devem participar da avaliação do trabalho, buscando identificar indicadores que sirvam para avaliar as mudanças ocorridas na aprendizagem dos educandos, com a atuação de todos.
Um projeto de ação complementar pode também ter como objetivos:
- promover o aumento do desempenho e freqüência dos educandos na escola;
- ampliar a co-participação dos pais na vida escolar, social e cultural da Escola e da ONG;
- melhorar o convívio familiar dos educandos que participam do projeto;
- implantar novas atividades lúdicas/educativas, completando as já existentes;
- promover a implantação de novos espaços e/ou recursos pedagógicos na ONG além dos já existentes, a fim de atender às necessidades;
- implantar ou aprimorar horários de formação em serviço, para que os educadores da ONG construam competências específicas para desenvolver o trabalho;
- favorecer a ampliação da integração ONG e Escola:
- promovendo reuniões, encontros, oficinas, horários de formação em serviço conjuntos entre os educadores da ONG e Escola parceira, previamente agendados e planejados para:
- estudo/ reflexão, avaliações do desempenho das crianças e dos trabalhos desenvolvidos, podendo-se otimizar horários de JEI nas escolas municipais e horários de HTPC/ estaduais;
- promover a troca de experiências entre os educadores, favorecendo o replanejamento de suas ações;
- incentivando a discussão de princípios comuns de trabalho a fim de terem coerência em suas posturas e intervenções junto aos educandos e seus familiares;
- discussão de projetos pedagógicos a serem desenvolvidos em ambas instituições, com definição de tarefas diferenciadas.
- os temas dos projetos podem ser tirados de sondagens junto aos educandos, de sugestões trazidas pelos educadores da ONG e/ou da escola parceira, dando-se destaque aos temas sugeridos nos Parâmetros Curriculares Nacionais / MEC/ temas transversais.
Finalizando, temos que ter muita clareza que dentro de um projeto de ação complementar é preciso encontrar pontos em comum, convergências e alianças entre a família, a escola, as ONGs e outras instituições da comunidade para maximizar a aprendizagem das crianças e jovens da comunidade.
“A lógica da parceria é a da intercomplementaridade de recursos e capacidade entre as organizações parceiras. Requer uma dose de desprendimento e o desejo de somar forças.”
“O medo, a esperança, a decepção, a simpatia e a antipatia, a harmonia e o conflito, a liderança e o diálogo são próprios do nível das relações que se dão nesse processo. Atuar com competência nesse nível é uma questão de habilidade e de experiência de vida.” (Marlova J. Noleto, in Parcerias e alianças estratégicas: uma abordagem prática – Instituto Fonte).
Acredito que somente trilhando esses caminhos e estabelecendo-se esses diálogos é que teremos melhores possibilidades de oferecer às crianças e adolescentes “muitos lugares para aprender”.
Profa. Miriam Grilo miriamgrilo@uol.com.br
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