ESTUDOS

 

A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja

Este é o tema do próximo Sínodo dos Bispos, marcado para os dias 05 a 26 de outubro de 2008, em Roma. Trata-se da 12ª Assembléia Geral Ordinária

O Instrumento de Trabalho da 12ª Assembléia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, lançado na Solenidade de Pentecostes, no dia 11 de maio de 2008, é fruto da contribuição de várias conferências episcopais, ministros ordenados, pessoas de vida consagrada e cristãos leigos e leigas, inclusive de representantes de Igrejas Orientais Católicas, a partir do Texto-base (Lineamenta) anterior.
Vale lembrar que o Sínodo dos Bispos foi instituído pelo papa Paulo VI, no dia 15 de setembro de 1965 (cf. Motu Próprio Apostolica sollicitudo), respondendo às indicações do Concílio Vaticano II (cf. Decreto Christus Dominus, 05), sendo um autêntico instrumento da colegialidade episcopal. Está contemplado no Código de Direito Canônico (Cân. 342-348). Geralmente os frutos das reflexões e discussões, ao final dos Sínodos, são apresentados ao papa, que, por sua vez, a partir destas indicações, publica um documento. Assim surgiram as Exortações Apostólicas Evangelii Nuntiandi (1975), Catechesi Tradendae (1979), Familiaris Consortio (1981), Reconciliatio et Paenitentia (1984), Christifideles Laici (1988), Pastores dabo Vobis (1992), Vita Consecrata (1996), Pastores Gregis (2003) e Sacramentum Caritatis (2007). Além dos Sínodos Ordinários, tivemos dois extraordinários (1969 e 1985), um particular para os países baixos (1980) e sete especiais: Líbano (1995), Europa (1991 e 1999), África (1994), América (1997), Ásia (1998) e Oceania (1998). Os Sínodos Ordinários aconteceram nos seguintes anos: 1967, 1971, 1974, 1977, 1980, 1983, 1987, 1990, 1994, 2001 e 2005.
O Instrumento de Trabalho do próximo Sínodo contém oito capítulos em suas três partes: a) “O mistério de Deus que nos fala” (identidade da Palavra de Deus segundo a fé da Igreja), com três capítulos; b) “A Palavra de Deus na vida da Igreja”, com dois capítulos; c) “A Palavra de Deus na missão da Igreja”, com três capítulos. A revista Rogate apresenta, de forma sintética, o conteúdo do sétimo capítulo, sobre “a Palavra de Deus nos serviços e na formação do povo de Deus” (n. 46-53). O texto fornece indicações para cada uma das vocações específicas em relação ao seu papel na Igreja, obviamente dentro da dimensão da Palavra de Deus.

Formação
A Constituição Dogmática Dei Verbum (sobre a Revelação Divina), do Concílio Vaticano II, recorda o multíplice valor da Palavra de Deus, indica com precisão as tarefas, os responsáveis e o caminho da formação dos fiéis para o acolhimento e a transmissão da Palavra. Persiste, no entanto, o desafio em descobrir formas criativas e evangelizadoras de atualizar o ensinamento da Dei Verbum, que, por sua vez, permita um acesso real, em quantidade e qualidade, à Palavra de Deus.
Teologia da Revelação, teologia da Escritura, relação entre Antigo e Novo Testamento, pedagogia de Deus são temas substanciais que só uma catequese orgânica e cursos bíblicos estruturados podem ilustrar. Há necessidade de metodologias e subsídios simples, acessíveis a todos.
Deve-se estar atento às necessidades do povo de Deus, as quais podem situar-se em três níveis:
- do conhecimento. Põe-se a questão da verdadeira natureza da Palavra e dos seus canais - a Escritura e a Tradição - com o serviço que o Magistério é chamado a prestar. Muito se fez depois do Concílio Vaticano II, mas ainda é grande a necessidade de clareza e certeza sobre o que a Revelação oferece. É necessário fazer-se entender e oferecer o pão da Palavra a irmãos e irmãs na fé. Para esse fim, sente-se a necessidade de uma solidariedade, também no plano material, entre as Igrejas.
- da compreensão. Permanece o problema da interpretação e da inculturação da Palavra de Deus. Existem muitas possibilidades de ouvir a Palavra de Deus. A dificuldade essencial está em conseguir que ela toque verdadeiramente os corações e se torne uma Palavra viva, e não apenas uma Palavra escutada ou conhecida.
- da prática da Bíblia. Falta tradução do texto bíblico para muitos; dificuldade de ler (analfabetismo em muitos lugares); a aprendizagem, para muitos, faz-se através dos canais audiovisuais e, portanto, fragmentados; a cultura religiosa dominante não tem como referência imediata o Livro Sagrado em certas partes do mundo.

O papel dos bispos
“Cabe aos sagrados Pastores [...] educar oportunamente os fiéis que lhes foram confiados para o correto uso dos livros divinos” (Dei Verbum 25).
O bispo, num mundo da mídia, deve ser um comunicador qualificado da sabedoria bíblica, não tanto pela sua ciência, quanto pela sua habitual familiaridade com os Livros Sagrados, tornando-se assim um guia para todos os que diariamente abrem a Bíblia.
O melhor modo de fomentar o gosto da Sagrada Escritura é a própria pessoa do bispo, plasmado pela Palavra de Deus. Ele tem a possibilidade contínua de ajudar os fiéis a saborear a Escritura. Todas as vezes que fala aos fiéis, de modo especial aos sacerdotes, pode dar algum exemplo e amostra de Lectio Divina. Se aprendeu a fazê-la como deve ser e se a apresenta de forma simples, os fiéis aprenderão.
O papel dos presbíteros e dos diáconos
Todos os clérigos, e sobretudo os presbíteros e os diáconos, devem necessariamente manter um contato íntimo com as Escrituras, mediante a sagrada leitura assídua e o estudo cuidadoso, para não se tornar vazio pregador da Palavra de Deus (cf. Dei Verbum 25; Presbyterorum Ordinis 4).
No uso cotidiano da Palavra, os presbíteros e diáconos encontram a luz necessária para não se conformarem com a mentalidade do mundo e fazerem um sadio discernimento pessoal e comunitário, que lhes permita guiar com zelo, na ação apostólica, o povo de Deus nos caminhos do Senhor.
Há necessidade de uma educação e formação pastorais iluminadas pela Palavra. O progresso das ciências bíblicas e, ao mesmo tempo, a variedade das necessidades e a evolução das situações pastorais exigem uma atualização permanente.
A tarefa do anúncio exige que se adotem iniciativas específicas, como, por exemplo, a valorização plena da Bíblia nos projetos pastorais. Em cada diocese, um projeto de pastoral bíblica, sob a orientação do bispo, ajuda a levar a Bíblia às grandes ações da Igreja, à evangelização e à catequese.
A formação nos seminários exige cada vez mais um conhecimento vasto e atualizado no campo da exegese e da teologia, uma formação não superficial no uso pastoral da Bíblia, uma iniciação verdadeira e própria à espiritualidade bíblica, sem nunca descuidar a educação para uma grande paixão pela Palavra ao serviço do povo de Deus. É um desejo, portanto, que muitos clérigos se dediquem aos estudos, mesmo acadêmicos, em Sagrada Escritura.

O papel dos vários ministros
A renovação bíblica e litúrgica revelou a necessidade de servidores da Palavra de Deus, antes de tudo na ação litúrgica e, depois, em todas as formas de comunicação da Bíblia. Entre os servidores da Palavra devem incluir-se os catequistas, os animadores de grupos bíblicos e quantos têm a seu cargo a formação dos fiéis na liturgia, na caridade e no ensino religioso das escolas.
O Diretório Geral da Catequese indica as competências para cada caso. Esta atenção aos cooperadores pastorais é sentida em todas as Igrejas particulares, notando-se, por um lado, o apego à Escritura e, por outro, a dificuldade em prestar tal serviço.

O papel dos cristãos leigos e leigas
Tornados membros da Igreja pelo Batismo e investidos da função sacerdotal, profética e real de Cristo, os fiéis leigos participam na missão salvífica que o Pai confiou a seu Filho para a salvação de todos os povos (cf. Lumen Gentium 34-36; Christifideles Laici 23.64; Código de Direito Canônico 204). São chamados a fazer resplandecer a novidade e a força do evangelho na sua vida cotidiana, familiar e social (cf. Christifideles Laici, 14).
Os cristãos leigos e leigas devem proclamar a Boa Nova. Não serem apenas ouvintes passivos, mas participar ativamente em todos os campos onde entra a Bíblia: no estudo científico, no serviço da Palavra em âmbito litúrgico ou catequético e na animação bíblica nos diversos grupos. O serviço dos leigos requer competências diversificadas que exigem uma formação bíblica específica.
Um meio privilegiado para o encontro com Deus que nos fala é a catequese no seio das famílias, com o aprofundamento de alguma página bíblica e a preparação da liturgia dominical.
Cabe à família iniciar os filhos na Sagrada Escritura, com a narração das grandes histórias bíblicas, especialmente da vida de Jesus, e com a oração inspirada dos Salmos ou de outros livros revelados.
Atenção aos movimentos ou grupos, como associações, instituições, novas comunidades. Com efeito, embora muito diferentes entre si nos métodos e campos de ação, têm como traço comum a redescoberta da Palavra de Deus e a sua colocação privilegiada no projeto espiritual-pedagógico para suscitar e alimentar a sua vida espiritual. Dispõem de eficazes itinerários formativos, centrados na assimilação existencial da Palavra de Deus. Ensinam como viver a liturgia e a oração pessoal, dando grande atenção à Palavra e privilegiando a liturgia da Igreja. Também fazem a oração do Ofício e a Lectio Divina como momentos de alimento espiritual.
Nesse fervoroso encontro com a Palavra de Deus é um dever imprescindível verificar se a comunhão eclesial e a caridade com os fiéis não pertencentes às agregações são sempre testemunhadas.

O papel das pessoas consagradas
As pessoas de vida consagrada “tenham todos os dias entre as mãos a Sagrada Escritura, para que aprendam, pela leitura e pela meditação dos Livros Sagrados, ‘a eminente ciência de Jesus Cristo’ (Fl 3,8)” (Perfectae Caritatis 6) e encontrem um renovado impulso no seu trabalho de educação e evangelização, mormente dos pobres, pequeninos e últimos, através dos escritos do Novo Testamento, “sobretudo os evangelhos, que são ‘o coração de todas as Escrituras’ [...], promovendo, nos moldes adequados ao próprio carisma, escolas de oração, de espiritualidade e de leitura orante da Escritura” (Vita Consecrata 94).
Para as pessoas consagradas, o texto bíblico deve tornar-se objeto de um cotidiano ruminar e de confronto para um discernimento pessoal e comunitário em vista da evangelização.
A leitura orante da Palavra feita com os jovens é a estrada de um renovado crescimento vocacional e de um fecundo retorno ao evangelho e ao espírito dos fundadores, tão recomendado pelo Vaticano II.
Valorizem o encontro comunitário com a Palavra de Deus, que produzirá comunhão fraterna, alegre partilha das experiências de Deus na vida, e ajudará a crescer na vida espiritual (cf. Vita Consecrata 94).

A mídia
Devido ao fato de o primeiro areópago do tempo moderno ser o mundo da comunicação que une a humanidade, o uso da mídia tornou-se essencial para a evangelização e para a catequese. A Igreja sentir-se-ia culpada diante do seu Senhor se não recorresse a ela. Nos meios de comunicação a Igreja encontra uma versão moderna e eficaz do púlpito. Graças a eles consegue falar às multidões (cf. Inter Mirifica 11).
Dê-se, portanto, com um sábio equilíbrio, amplo espaço aos métodos e às novas formas de linguagem e comunicação na transmissão da Palavra de Deus, como são o rádio, a televisão, o teatro, o cinema, a música e as canções, até aos novos meios, como o CD, o DVD, a Internet etc.
Não se esqueça, porém, que o bom uso da mídia exige dos agentes pastorais um sério esforço e competência. Há que integrar a própria mensagem na “nova cultura”, criada pela comunicação moderna, com novas linguagens, novas técnicas e novas atitudes psicológicas (cf. Diretório geral para a Catequese 161).

In: Revista Rogate 265, set/08, p. 14-17.
 
 
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