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Teologia da Comunicação: base fundamental da ação de comunicar
A Teologia da Comunicação é a base, o fundamento e a referência de toda análise sobre a relação entre Evangelização e Comunicação, ou sobre toda Pastoral da Comunicação.
O significado da comunicação para o ser humano só é compreendido à luz do que ela representa a Deus-criador. O ponto de partida, para este entendimento, está no “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gn 1,26) e no “Deus é amor” (1Jo 4,8). “Dizer amor, é dizer doação de si mesmo ao outro e, portanto, Comunicação. Deus, então, é comunicação (1).” Pela revelação descobre-se que Deus é uma família, uma comunidade de amor formada pelo Pai, o Filho e o Espírito Santo. A Trindade vive uma comunicação eterna e plena, constituindo-se o ponto culminante do amor.
O sentido da comunicação, em Deus, é conduzir a humanidade à perfeita comunhão no amor. A pessoa, imagem e semelhança de tal Deus, capaz de conhecer e amar como Ele, tem uma missão: ser comunidade e família à exemplo de Deus. Isto representa vocação à comunhão, vocação à comunicação de vida e amor. A comunidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo significa o protótipo da comunidade humana sonhada pelos que querem melhorar a sociedade e assim construí-la para que seja imagem e semelhança da Trindade. “[...] a Trindade quer ver-se figurada na história, na medida em que as pessoas colocam tudo em comum, estabelecem relações igualitárias e justas entre todos, partilham o ser e o ter (2).”
Portanto, a comunicação surge da necessidade da pessoa humana em realizar sua vocação de ser semelhante a Deus. O sentido da vida humana consiste em amadurecer a sua capacidade de comunicação e comunhão, para chegar, um dia, à plenitude de comunhão e participação (3).
A Trindade, desta forma, sendo expressão da fé, ajuda a entender melhor o universo e a sociedade humana como um processo de comunicação, de comunhão e de união pela total interpenetração de uns com os outros.
Deus traz seu projeto de comunhão e vida, mas a humanidade rompe com esta proposta. Os profetas reconvocam o povo através de anúncios e denúncias, mas é através de Jesus Cristo que a comunicação do Pai é transmitida por excelência. Por fim, o Espírito Santo é quem dá força para o serviço de solidariedade, o anúncio do evangelho e a celebração da fé.
1. Deus: a Tri-unidade
Se Deus fosse um só, haveria a solidão e a concentração na unidade e unicidade. Se Deus fosse dois, uma díade (Pai e Filho somente), haveria a separação (um é distinto do outro) e a exclusão (um não é o outro). Mas Deus é três, uma Trindade. O três evita a solidão, supera a separação e ultrapassa a exclusão(4).
Segundo os teólogos gregos, Deus-Pai é a origem e a fonte de toda a divindade, comunicando toda a sua substância ao Deus-Filho e ao Deus-Espírito Santo. Nesta concepção, corre-se o risco de se hierarquizar as divindades de forma desigual. Já para os teólogos latinos, Deus é antes de tudo um Espírito absoluto que pensa e ama. A suprema inteligência de si, se chama Filho, e o infinito Amor, o Espírito Santo. Também neste caso, corre-se o risco de se cair no dinamismo da causa-efeito ou de se conceber modos distintos de absoluto. Numa terceira perspectiva, superando os riscos das anteriores, Pai-Filho-Espírito Santo, coexistem simultaneamente e originalmente são co-eternos. Sempre estão relacionados. Sua unidade reside na comunhão entre os divinos três. A comunhão é expressão do amor e da vida. Vida e Amor são dinâmicos e transbordantes. “Sob o nome de Deus devemos entender, portanto, sempre a Tri-unidade, a Trindade como união do Pai, do Filho e do Espírito Santo (5).” Deus é comunhão porque é Trindade de Pessoas. São três Pessoas e uma só comunhão e uma só comunidade trinitária. Nenhuma Pessoa divina existe só para si. São sempre e eternamente Pessoas em relação. O Pai é Pai porque tem um Filho. O Filho só é Filho em relação ao Pai. O Espírito é Espírito por causa do amor com que o Pai gera o Filho e o Filho o devolve ao Pai.
Deus representa a abertura absoluta, isto é, não está fechado sobre si mesmo, mas está presente ao outro, aberto à acolhida. Envia uma mensagem na esperança de ser escutado e recebido e de, ao mesmo tempo, escutar e receber a mensagem do outro. A mensagem é a própria presença de um que quer entrar em diálogo e comunhão com o outro (6). Representa, desta forma, presença suprema, imediatez total (transparência de intenções, união de corações, convergência de interesses), transcendência eterna e comunhão infinita. Deixa-se perceber e é percebido.
Deus comunica-se pela Criação (cf. Gn 1,26-28) e pela Aliança (cf. Ex 19,3-25; 20,1-21) que fez com o povo escolhido. Não necessita de palavras porque os efeitos da Criação estão por toda a parte. Pela Aliança, no entanto, demostrando amizade e proximidade, Deus lança o projeto de comunhão e vida (cf. Sl 36,10; Jo 14,6). “Deus não se limita a inaugurar um diálogo com o homem. Ele, na verdade, faz uma proposta e apresenta um projeto: reconciliar a humanidade, restaurando a justiça (7).”
A experiência bíblica traz um constante diálogo amoroso entre Deus e um povo minúsculo e insignificante, deixando claro que o Deus bíblico privilegia a simplicidade, a pobreza, o despojamento, quando decide dialogar com a humanidade. A verdade é que a comunicação de Deus para com a humanidade, através de sua presença pela Criação e pelo seu projeto, caracteriza-se por absoluta gratuidade (8).
A humanidade não entende esse Projeto de Vida e Justiça, acabando por romper a Aliança firmada com Deus. Rompe, assim, a comunicação com Deus e, como conseqüência do pecado, há o rompimento também da comunicação entre as próprias pessoas. “A culminação da incomunicação é a violência assassina. Quem não ama, carrega um germe homicida dentro de si (1Jo 3,15) [...] A perversão da comunicação é capaz também de produzir um remédio pecaminoso de comunhão: a união das forças do mal, que formam sólidas e disciplinadas organizações a serviço do enriquecimento ilícito, do crime ou da opressão política (Rm 1,18; Jo 7,32; 18,12) (9).”
Os profetas vêm restaurar a comunicação e a Aliança de Deus com o povo, denunciando toda a idolatria e injustiças, e anunciando a continuidade de Deus em oferecer-se como dom gratuito, comunicando vida. Esta comunicação - caminho de liberdade e comunhão, enraizada na profundidade do humano a partir de Deus - só será real quando a humanidade estiver comprometida com a vida na plenitude de suas dimensões (10).
2. Jesus Revela o Divino
Nascido em Belém da Judéia (Mt 2,1) e criado em Nazaré da Galiléia (Lc 4,16), Jesus falava o aramaico com sotaque de judeu da Galiléia. Era visto como judeu pela samaritana (Jo 4,9) e como galileu pelos judeus da Judéia (Mt 26,69) (11). Assume, portanto, os condicionamentos humanos, que ninguém escolhe, mas que afetam a vida. Lugar, tempo, cultura, família, caráter, cor, sexo, físico, religião e classe social, são aspectos inerentes à condição humana que Jesus também assumiu. E o fez no meio dos pobres: “Sendo rico, se fez pobre” (2Cor 8,9), “filho do carpinteiro” (Mt 13,55) (12).
Jesus Cristo mostra-se como Filho de Deus-Pai por suas palavras, suas orações, suas práticas libertadoras, sua morte e ressurreição na força do Espírito. É ele que nos revela a Santíssima Trindade. Jesus responde quem é Deus na medida em que mostra como age Deus. Sua prática de vida revela o divino, a bondade e a misericórdia. “Aprouve a Deus, em sua bondade e sabedoria, revelar-Se a Si mesmo e tornar conhecido o mistério de Sua vontade (cf. Ef 1,9), pelo qual os homens, por intermédio do Cristo, Verbo feito carne, e no Espírito Santo, têm acesso ao Pai e se tornam participantes da natureza divina [...].” (Constituição Dogmática Dei Verbum, n.2). O beneficiado da ação libertadora de Jesus - leproso, cego, etc. - se dá conta de que está sob a força do Divino que cura e salva.
O momento culminante da comunicação entre Deus e o ser humano é a Encarnação de Jesus. “A Encarnação é a ação comunicativa por excelência [...] Se a Criação nos mostra a gratuidade de Deus, a Encarnação nos mostra a expressão eficaz de um Deus que age por amor (13).”
De fato, o Pai através de seu Filho, Jesus Cristo, está presente e se manifesta por palavras, obras, sinais e milagres. Deus fala, de modo humano, transmitindo seu projeto de liberdade e vida plena. A presença de Deus é confirmada na ação do Espírito de verdade, que aperfeiçoa continuamente a fé por meio de Seus dons (cf. Dei Verbum, n.4-5.12).
2.1. A prática de Jesus
“Por suas atitudes Jesus encarna o Reino e corporifica o amor do Pai. Se se aproxima daqueles que todos evitavam, como os pobres, pecadores públicos, impudicos, bêbados, leprosos, meretrizes, em uma palavra, dos marginalizados social e religiosamente, não é por mero espírito humanitário, mas porque historifica a atitude amorosa do Pai para com esses pequenos e pecadores (14).”
Jesus anuncia a mensagem do Reino de Deus através, principalmente, de seu serviço ao povo. Os aspectos desta prática, na qual o Reino se fazia presente, era escândalo para muitas pessoas (Mt 11,6) e ainda é. Ao conviver com os marginalizados e os acolher, ao combater as divisões injustas ou os males que vão contra a vida, ao desmascarar a falsidade das lideranças, Jesus se apresenta ao povo anunciando a Boa Notícia do Reino. “Nestes gestos de solidariedade ele se revela como Emanuel, Deus-conosco (Mt 1,23), e se torna, ele mesmo, uma Boa Notícia para o povo. [...] Muita gente começa a seguir Jesus (15).” Estes atos de Jesus são, fundamentalmente, os sinais da vinda do Reino, como ele mesmo afirma aos discípulos de João Batista: “Os cegos recuperam a vista, os coxos andam, os leprosos são purificados e os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados.” (Mt 11,5) (16).
Eis alguns exemplos (17) da prática de Jesus narrada pelos evangelistas:
a) acolhe os excluídos da sociedade: os imorais (prostitutas e pecadores. Mt 21,31-32; Lc 7,37-50; Jo 8,2-11), os hereges (pagãos e samaritanos. Lc 7,2-10; 17,16; Mc 7,24-30; Jo 4,7-42), os impuros (leprosos e possessos. Mt 8,2-4; Lc 17,12-14; 11,14-22; Mc 1,25-26.41-44), os marginalizados (mulheres, crianças e doentes de todo tipo. Mc 1,32-34; Mt 8,17; 19,13-15; Lc 8,1-3), os colaboradores do império (publicanos e soldados. Lc 18,9-14; 19,1-10), os pobres (Mt 5,3; Lc 6,20.24; Mt 11,25-26);
b) combate as divisões injustas: ser e não-ser próximo (Lc 10,29-37), judeu e estrangeiro (Lc 7,6-10; Mt 15,21-28), santo e pecador (Mc 2,15-17), puro e impuro (Mt 23,23-24; Mc 7,13-23), rico e pobre (Lc 16,19-31), sagrado e profano (Mc 2,27; 13,2; Jo 2,19; 4,21-24; 7,23);
c) combate os males que vão contra a vida: fome (Mc 6,35-44), doença (Mc,32-34), tristeza (Lc 7,13), abandono (Mt 9,36), solidão (Mt 11,28; Mc 1,40-41), discriminação (Mc 9,38-40; Jo 4,9-10), leis opressoras (Mt 23,13-15; Mc 7,8-13), injustiça (Mt 5,20; Lc 22,25-26), medo (Mc 6,50; Mt 28,10), sofrimento (Mt 8,17), pecado (Mc 2,5), morte (Mc 5,41-42; Lc 7,11-17), demônio (Mc 1,25.34; Lc 4,13);
d) desmascara falsas lideranças: sacerdotes, escribas e fariseus (Mt 23,1-36; Lc 11,37-52; 12,1; Mc 11,15-18).
“Jesus anuncia, chama e convoca. Atrai, consola e ajuda. É uma paixão que se revela. Paixão pelo Pai e pelo povo pobre e abandonado. ‘Tenho dó deste povo’ (Mc 8,2) (18).” Revela um Deus próximo e identificado com o ser humano, buscando a comunhão total. Revela o Deus-Pai, que convida toda a humanidade, de forma gratuita, à filiação: “Eu sou o caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai a não ser por mim. Se me conheceis, também conhecereis a meu Pai. Desde agora o conheceis e o vistes.” (Jo 14,6-7).
Jesus é o Caminho enquanto revela o Pai (Jo 12,45). Ele faz todos conhecerem o caminho (At 9,2) para o Pai e é seu único acesso (Jo 1,18; 14,4-7). Ele vem do Pai e volta a Ele (ver Jo 7,29.33; 13,3; 16,28). No entanto, Jesus é um com ele (Jo 10,30; 12,45; 14,9; 17,22) (19). Jesus é a Verdade (Jo 8,32), a realidade plena do dom do Pai e do seu desígnio salvífico (cf. Ap. 3,7). Ele proclama as palavras que recebe do Pai que o enviou e, assim, faz todos conhecerem aquele que ele conhece (Jo 1,18) (20). Jesus é a Vida (Jo 11,25), ele tem em si a vida e a promete aos que nele crêem (cf. Jo 5,26; 2Cor 4,18) (21).
Cristo, o Deus feito humano, é a perfeita comunicação de Deus com a humanidade e da humanidade com Deus. É, ao mesmo tempo, emissor e receptor. “Vem de Deus, fala daquilo que conhece, utiliza o pobre como código de comunicação e usa linguagem contextualizada (22).”
“No verbo feito carne Deus comunica-se definitivamente. Na pregação e na ação de Jesus, a Palavra torna-se libertadora e redentora para toda a humanidade.” (Aetatis Novae, n. 6). A Boa Nova de Jesus Cristo vai contra toda a dinâmica do pecado e anuncia um Deus fiel a seu projeto de amor e vida, libertando o ser humano de todas as suas amarras. Cristo evangelizador é o libertador que reconcilia e restabelece a comunicação e a comunhão entre Deus e a humanidade (cf. Puebla 188).
“A denúncia e a prática de Jesus atinge a raiz do sistema mascarador. [...] Ele simplesmente relativiza a lei, mostrando que ela tem valor quando ajuda a construir uma sociedade fraterna e justa, onde todos possam ter mais vida (23).” A relação de Jesus com os excluídos da sociedade vai mostrando, na realidade, em que consiste o Reino e a Boa Nova. A boa notícia o é de fato porque vai contra uma situação má, de injustiça e morte. A defesa eficaz do pobre e marginalizado supõe tirar o pecado real e objetivo que o emprobece e marginaliza. Esta é a estrutura fundamental da prática de Jesus (24).
2.2. A Comunicação de Jesus através das Parábolas
Parábola é um recurso de linguagem que estabelece uma comparação, também entendida como historieta ou conto, ou, ainda, provérbio. No hebraico, MASHAL (cf. Mt 13,35) pode ser uma frase, um dito, um enigma, uma charada, um provérbio ou até mesmo um fato capaz de passar um ensinamento aos outros.
Nos evangelhos, as parábolas aparecem como pedagogia de Jesus, sua maneira própria de ensinar e dialogar a partir de situações concretas da vida. “Mostra que Jesus não só pregou a mensagem das parábolas, mas também as viveu e as corporificou em sua pessoa (25).” Provocava a reflexão nos discípulos (Mt 18,23-35) e na multidão que o seguia (Mt 13,1-3), respondendo sobre o que lhe perguntavam (Mc 7,27) e também enfrentando os seus adversários, escribas e fariseus (Lc 15,1-3).
Pode-se contar mais de cem parábolas atribuídas a Jesus, que falam do Reino e de sua simplicidade, que falam da prática dos discípulos, da prática de Jesus ou da ação de Deus (26). A maneira de Jesus se comunicar com o povo - através das parábolas, deixando em aberto o significado ao invés de ensinar uma doutrina sólida e inquestionável - levou as comunidades a questionar a pedagogia do Mestre (Mt 13,10). A resposta vem talvez complicar ainda mais: “[...] eles olham e não vêem, ouvem e não escutam nem compreendem [...]” (Mt 13,10-16; cf. Is 6,9-10). É no conteúdo das parábolas de Jesus que se encontra a resposta. Com elas, Jesus quer ilustrar seus ensinamentos sobre o Reino de Deus, clareando, apontando e revelando aos poucos o Reino. As pessoas esperavam outro tipo de reino e Jesus queria apenas que elas mudassem sua concepção e acolhessem a novidade trazida.
Além das mensagens em parábolas, havia a mensagem do milagre. Os milagres aparecem como um fato extraordinário onde se percebe a ação de Deus, aos olhos da fé. Indicam a presença libertadora de Deus no meio do povo, escutando o grito e o clamor daquele que sofre, do doente, do marginalizado. É apenas um pequeno sinal, suficiente para lembrar de Deus presente na história.
Jesus vivenciou a comunicação através do testemunho de vida, comunicando a verdade e a paz através da palavra e da ação, dando voz e vez aos que não tinham voz nem vez. Foi contra o espírito dominador do mundo e promoveu a comunicação libertadora na sociedade, perseverando nos momentos de perseguição, conseqüência da verdade comunicada e vivida (27).
3. O Espírito Atualiza a Mensagem
“A comunicação da verdade pode ter realmente um poder de redenção, que emana da pessoa de Cristo. Ele é o Verbo de Deus feito carne e a imagem do Deus invisível. N’Ele e por Ele a vida de Deus comunica-se à humanidade pela ação do Espírito.” (Aetatis Novae, n. 6).
Tudo na missão do Espírito Santo tende a manifestar a sua relação com o Pai e o Filho. O Espírito Santo foi enviado para conduzir a Cristo e Cristo conduz ao Pai (28).
Através de sua presença em Maria, formando a santa humanidade de Cristo (cf. Lc 1,35; Mt 1,20), ou descendo sobre Jesus no batismo, fazendo-o portador permanente do Espírito (cf. Mc 1,10; Mt 3,16; Lc 3,22; Jo 1,32-33), ou ainda transfigurando-lhe a realidade terrestre pela ressurreição (cf. Rm 1,4) e animando com fogo os corações dos Apóstolos (cf. Jo 20,22; At 2,4), o Espírito Santo revela, na história, o Deus-Filho e o Deus-Pai. Constitui a força ativadora de Deus e, neste sentido, significa o próprio Deus enquanto age, inova, abre caminhos novos. O acesso ao Filho se dá pelo Espírito, ou seja, é o Espírito Santo quem faz compreender a vida e a atividade de Jesus. “Ninguém pode dizer ‘Jesus é Senhor’ a não ser no Espírito Santo.” (At 12,3b). O agir de Jesus somente pode ser entendido a partir do seguimento. “Quem não segue a Jesus, não pode entendê-lo (29).” Todavia, como hoje não se pode copiar o agir de Jesus do contexto do século I, somente o Espírito Santo pode manter uma autêntica continuidade, apesar da distância. Recria, desta forma, a práxis de Jesus, suscitando um novo lingüajar capaz de explicar e comentar a nova práxis. É o Espírito Santo que ilumina para o serviço da solidariedade, para o anúncio do evangelho e, também, para a celebração da fé. Em Pentecostes dá-se o inverso de Babel. A força do Espírito reúne os discípulos, que passam a se constituir testemunhas comunicativas da libertação de Jesus. Eles partiram em missão fiéis ao mandamento do Mestre: “Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura.” (Mc 16,15).
As experiências do Espírito Santo não são, portanto, separáveis do agir concreto. Várias expressões revelam isto na história e na ação do sujeito histórico. Quando as pessoas descobrem que também elas são sujeitos da ação no mundo, chamadas à missão de conquistar a liberdade, de ter o direito à voz, de viver em comunidade e de lutar pela vida, é o Espírito que dá esta força, que produz liberdade, palavra, ação, comunidade e vida. Não se separam ação e oração, agir e celebração, experiência pessoal e comunitária. Há um só objeto: Deus e a criação, unidos. O trabalho do Espírito na história é discreto, mas garante a transformação social ao mostrar o valor da graça, da comum-unidade, da vida e ao conscientizar as pessoas destes valores.
O Espírito Santo não se encarna numa pessoa, nem está determinado num ponto histórico, no tempo e espaço. O Deus-Filho sim, age pela encarnação e torna-se um ponto na história da humanidade. O Espírito está presente em toda a humanidade, agindo em todas as pessoas, todas as culturas e religiões. Habita na multiplicidade e assume a diversidade, criando um movimento de comunhão e convergência a partir da imensa diversidade humana.
É chamado, também, de Espírito de Cristo (Rm 8,9; Fl 1,19) ou Espírito do Senhor (2Cor 3,17) e Espírito de seu Filho (Gl 4,6). Ninguém conheceu o que há em Deus senão o Espírito de Deus (cf. 1Cor 2,11).
4. Chamados à Comunhão
A Santíssima Trindade constitui um mistério sacramental. Enquanto é sacramental poderá ser entendido progressivamente, conforme a Trindade mesma o comunicar e a inteligência cordial o assimilar. Enquanto é mistério, permanecerá sempre como o Desconhecido em todo o conhecimento, pois o mistério é o próprio Pai, o próprio Filho e o próprio Espírito Santo. E o mistério durará eternamente (30).
A pessoa humana é convidada a superar todos os mecanismos de egoísmo e a viver sua vocação de comunhão (cf. Jo 17,21). “A nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo. Se caminhamos na luz, como ele está na luz, estamos em comunhão uns com os outros.” (1Jo 1,3b.7a). Toda a humanidade é chamada a esta união com Cristo, luz do mundo, “do qual procedemos, por quem vivemos e para quem tendemos” (Constituição Dogmática Lumen Gentium, n.3). A sociedade ofende a Trindade com a organização desigual e a honra quanto maior for a participação e a comunhão de todos, gerando justiça e igualdade entre todos.
A Igreja será mais sacramento da comunhão trinitária, quanto mais superar as desigualdades entre os cristãos, chamados - desde o batismo - a viver o Projeto de Deus, na igualdade e justiça, no amor e na paz, na união e fraternidade. “Ao comunicar o seu Espírito, (Jesus) fez de seus irmãos, chamados de todos os povos, misticamente os componentes de seu próprio Corpo. [...] ‘Com efeito, em um só Espírito fomos batizados todos nós para sermos um só corpo’ (1Cor 12,13).” (Lumen Gentium, n.7).
Jesus chama as pessoas para segui-lo (Mt 10,1; Lc 9,1; 10,1), imitando seu exemplo (cf. Jo 13,13-15), refazendo seu caminho (cf. Gl 2,20), participando de seu destino, nas tentações (cf. Lc 22,28), na perseguição (cf. Jo 15,20; Mt 10,24-25), e até na disposição em morrer por ele (cf. Jo 11,16). O seguimento exige, basicamente, duas posturas: ficar com ele; sair a pregar e a expulsar demônios (cf. Mc 3,13-15). Disto decorrem as duas posturas mais importantes na vida do cristão de hoje: ser da comunidade (ficar com Jesus); realizar na comunidade a missão que recebeu (pregar e expulsar demônios). São duas posturas inter-relacionadas, que exigem disposição a abandonar tudo, decisão e compromisso. “O peso, porém, não está na renúncia, mas sim no amor que dá sentido à renúncia. É por amor a Jesus (Lc 9,24) e ao Evangelho (Mc 8,35) que o discípulo ou a discípula deve renunciar a si mesmo carregar sua cruz, todos os dias, e segui-lo (Mt 10,37-39; 16,24-26; 19,27-29) (31).”
Graças ao Concílio Vaticano II, convocado pelo papa João XXIII e concluído em 1965, a Igreja abriu-se ao diálogo com os tempos modernos. O processo de mudanças profundas e de renovação numa nova perspectiva de vida e de ação pastoral foi desencadeado. O Concílio tornou-se uma referência histórica, fonte de conversão e de nova vida em toda a Igreja. Deve estar à serviço da vida humana, anunciando o Evangelho, iluminando a humanidade com a luz de Cristo (Lumen Gentium, n.1), num constante diálogo interno (cf. Lumen Gentium, Sacrossanctum Concilium), com o mundo (cf. Gaudium et Spes) e com outros credos (cf. Unitatis Redintegratio, Dignitatis Humanae e Nostra Aetate). O surgimento de uma nova eclesiologia, consequência deste processo de abertura, com maior ênfase ao povo de Deus, (32) possibilitou a reflexão de questões antes tidas como impróprias ou inconvenientes. É a partir do Vaticano II que a Igreja reconhece a importância de utilizar os meios de comunicação em sua tarefa de evangelizar os povos.
Pe. Juarez Albino Destro, RCJ
jdestro@rcj.org
1 CELAM - DECOS. Para uma Teologia da Comunicação na América Latina, p. 34.
2 L. BOFF. A Trindade, a Sociedade e a Libertação, p. 169.
3 Cf. CELAM - DECOS. Op.Cit., p. 35.
4 Cf. L. BOFF. A Trindade... Op.Cit., p. 13.
5 Ibidem, p. 15.
6 Ibidem, p. 163.
7 H. E. PRETTO. A fala de Deus na voz da Igreja. In.: Vida Pastoral, p. 4.
8 Ibidem, p. 4.
9 CELAM - DECOS. Comunicação: Missão e Desafio, p. 173-4.
10 Cf. H. E. PRETTO. Op.Cit., p. 6.
11 Para um estudo mais detalhado sobre a pessoa de Jesus histórico, ver a interessante obra de: J. P. MEIER. Um Judeu marginal.
12 Cf. C. MESTERS. Com Jesus na Contramão, p. 15-7.
13 J. T. PUNTEL. Teologia da Comunicação e os Desafios da Evangelização Inculturada. In.: Espaços, p. 33.
14 L. BOFF. Jesus Cristo Libertador, p. 28.
15 CRB. Seguir Jesus: os Evangelhos, p. 27.
16 Cf. J. SOBRINO. Cristologia a partir da América Latina, p. 68.
17 Cf. CRB. Op.Cit., p. 24-7.
18 C. MESTERS. Op.Cit., p. 55.
19 Cf. A BÍBLIA DE JERUSALÉM, nota “s” de Jo 14.
20 Ibidem, nota “h” de Jo 8
21 Ibidem, nota “g” de Jo 3.
22 P. G. GOMES. Texto Base da Campanha da Fraternidade de 1989.
23 E. M. BALANCIN. Jesus, decodificador da realidade. In.: Vida Pastoral, p. 24.
24 Cf. J. SOBRINO. Jesus na América Latina, p. 212.
25 J. JEREMIAS. As Parábolas de Jesus, p. 228.
26 Classificar todas as parábolas de Jesus não é tarefa fácil. Uma das formas de agrupamento pode ser encontrada em CRB, Op.Cit., p. 97-8. Para um estudo mais aprofundado sobre a temática, com análises de imagem, alegorias, fusões de parábolas, coleções, parábolas duplas, enquadramento, etc. ver: J. JEREMIAS. Op.Cit.
27 Cf. A. BELTRAMI. Sociedade, Evangelização e Comunicação, p. 12.
28 Cf. J. COMBLIN. O Espírito Santo e a Libertação, p. 204.
29 Ibidem, p. 195.
30 Cf. L. BOFF. A Trindade... Op.Cit., p. 284.
31 C. MESTERS. Op.Cit., p. 67.
32 Sobre a Nova Eclesiologia, tendo como ponto de partida o Povo de Deus, ver a obra de: R. VELASCO. A Igreja de Jesus.
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