ESTUDOS

 

Mês Vocacional: de Santo Ângelo para o Brasil

Em 1971, na assembléia do clero de Santo Ângelo (RS), aprovou-se a realização de um mês vocacional naquela diocese. O bispo da época, D. Aloísio Lorscheider, que esteve à frente da diocese de 1962 até 1973, levou a sugestão ao clero local, motivado pelas celebrações do Dia Mundial de Oração pelas Vocações. O “Dia do Bom Pastor”, como passou a ser conhecido o Dia Mundial de Oração pelas Vocações, foi instituído em 1964 pelo papa Paulo VI. Três anos depois, em 1967, D. Aloísio passou a ser o secretário da CNBB, cargo que exerceu até 1971, quando foi eleito presidente (até 1979). Vale ressaltar que ele também foi presidente do Conselho Episcopal Latino Americano (CELAM) de 1976 a 1979. Pessoa bastante influente e atualizada, consciente dos novos rumos trazidos pelo Concílio Vaticano II (1962-1965), o então bispo de Santo Ângelo percebeu que as celebrações do Dia do Bom Pastor ainda não eram bem animadas e sentiu a necessidade de se fazer algo mais para a conscientização da necessidade de se rezar e trabalhar pelas vocações.

No 7º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, realizado em 1970, certamente D. Aloísio leu a insistência de Paulo VI em sua mensagem para a ocasião: “O dever de fomentar as vocações sacerdotais pertence a toda a comunidade cristã, que, em primeiro lugar, deverá cumpri-lo por meio de uma vida plenamente cristã (Optatam Totius, 2). Com efeito, a própria vocação cristã [...] encontra a sua expressão e o seu ponto culminante na vocação sacerdotal e religiosa. Esta vocação é inconcebível se precedentemente não for despertada e educada a vocação cristã. É neste ponto que se manifesta o índice claro e inequívoco da vitalidade de cada uma das comunidades paroquiais e diocesanas” (Paulo VI, Mensagem para o 7º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, 15/03/1970, n. 100).
“O que minha diocese poderia fazer para despertar e educar a vocação cristã, segundo o apelo do papa?”, pode ter pensado D. Aloísio na época...

Por outro lado, nos anos pós-Concílio estava se respirando “novos ares” também na área das vocações. Aliás, pode-se dizer que, pela primeira vez na história, um Concílio Ecumênico ocupou-se do tema “vocacional”. A matéria, ao final, resultou distribuída em vários documentos. A Pontifícia Obra das Vocações, nos primeiros anos logo após a conclusão do Concílio, desenvolveu um amplo programa de eventos, organizando e realizando diversos congressos com o objetivo de sensibilizar os responsáveis pelas vocações dos diversos países, a fim de trocar experiências e iniciar uma caminhada em comum. Foram realizados quatro congressos internacionais, nos anos de 1966, 1967, 1969 e 1971. No primeiro, apenas os coordenadores vocacionais da Europa foram convidados, por motivos práticos. No terceiro, em 1969, representando a América Latina, participou o secretário do então DEVOC (Departamento de Vocações) - hoje DEVYM (Departamento de Vocações e Ministérios) - do CELAM. Por fim, o congresso de 1971 ofereceu uma valiosa contribuição às Igrejas nacionais, na elaboração de seus “Planos de Ação” para as vocações. O trabalho de aplicação do Concílio Vaticano II entrava cada vez mais em cada nação.

A experiência da celebração do mês vocacional na diocese de Santo Ângelo logo ganhava adeptos. A escolha do mês de agosto, segundo o bispo emérito daquela diocese, D. Estanislau Amadeu Kreutz (que ficou à frente da diocese de 1973 a 2004) foi para fugir de alguns tempos litúrgicos importantes, como o Advento, a Quaresma e o Tempo Pascal, e devido à memória litúrgica de São João Maria Vianney, o padroeiro dos párocos, celebrado no dia 04 de agosto. “Inicialmente incentivávamos mais explicitamente as vocações presbiterais”, afirmou D. Estanislau em entrevista à equipe da agenda vocacional Caminhos. “Quando a proposta da celebração do mês vocacional foi abraçada também pelo Regional Sul 3 da CNBB, correspondente ao Rio Grande do Sul, abrimos os horizontes para destacar uma semana para o serviço da animação vocacional de cada vocação específica: a primeira semana veio a concentrar-se sobre a vocação presbiteral; a segunda semana sobre a vocação matrimonial ou familiar; a terceira semana sobre a vocação à vida consagrada, e a quarta sobre a vocação do ministério dos leigos. Havendo um quinto domingo, ele era dedicado à missão dos catequistas”.

No Encontro Nacional de Pastoral Vocacional de 1974, realizado no Rio de Janeiro, já é possível verificar algumas indicações referentes à fixação de datas vocacionais, como dias, semanas ou meses. Sugeriu-se, por exemplo, que os Regionais da CNBB promovessem “mês e semana vocacionais” (Estudos da CNBB 5, p. 148). E os participantes do encontro sugeriram à coordenação nacional que procurasse “fixar datas: semana, mês ou ano vocacional” (idem, p. 150). Não é difícil perceber a influência da experiência do Regional Sul 3 da CNBB – Rio Grande do Sul – no âmbito nacional.

As indicações foram ganhando força, motivadas provavelmente por experiências bem sucedidas de outras dioceses e até regiões. Desta forma, no Encontro Nacional de Pastoral Vocacional de 1980 houve a proposta concreta de se instituir agosto como o mês vocacional no país e também a realização, em 1983, de um Ano Vocacional. As duas propostas foram levadas à Assembléia da CNBB de 1981 e foram aprovadas: “O ano de 1983 seja o Ano Vocacional para todo o Brasil, e que todas as campanhas de nível nacional, diocesano e paroquial sirvam de conscientização e formação de vocações. O mês de agosto seja assumido, em todo o território nacional, como o mês vocacional, e a Linha 1 dos Organismos Nacionais de Pastoral de CNBB, através do setor de vocações e seminários, coloque em comum as diversas iniciativas dos Regionais e dioceses” (Documentos da CNBB 20, n. 258 e 259). Vale recordar que atualmente é a “Comissão Episcopal Pastoral para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada” a grande articuladora das iniciativas em âmbito nacional.

Uma última constatação. O início do pontificado de João Paulo II, com grande enfoque à questão vocacional e ministerial, e sua visita ao Brasil, em 1980, também favoreceram a escolha do tema da assembléia da CNBB de 1981 – “Vida e Ministério do Presbítero; Pastoral Vocacional” –, que direta ou indiretamente ocasionou a instituição do mês vocacional.

Pe. Juarez Albino Destro, RCJ
jdestro@rcj.org 

 
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