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DimensÃo eucarÍstica de Santo AnÍbal
Observando a vida e os escritos de Santo Aníbal, percebemos uma profunda dimensão eucarística. Interessante analisar o modo como ele, na contemplação diária da eucaristia,
percorreu pontualmente e com originalidade carismática as perspectivas dadas pelo papa João Paulo II na convocação do Ano da Eucaristia.
1. Eucaristia: mistério de luz
Santo Aníbal considera a eucaristia antes de tudo como mistério de luz. É bom recordarmos que foi num momento eucarístico, durante a adoração a Jesus Sacramentado na Igreja de São João de Malta, em Messina, que o jovem Aníbal recebeu, como uma autêntica luz do Espírito, a revelação do Rogate! Esta intuição-inspiração – que ele mesmo descreverá como clara e indiscutível e que marcará, ou por zelo ou por idéia fixa, toda a sua existência –, desabrocha diante e por meio da eucaristia.
Desde então, Santo Aníbal percebe e intui que a eucaristia é luz para compreender o Rogate. E que existe uma relação íntima entre a eucaristia e o Rogate. Em sua participação no Congresso Eucarístico Internacional, em Roma, no ano de 1905, Santo Aníbal assim se expressa: “Existe uma palavra no evangelho cuja cultura possui um profundo nexo com a eucaristia, nela se encerra o segredo de todo bem para a Igreja e para a sociedade... Não podemos conceber a eucaristia sem o sacerdócio, nem pode existir o sacerdócio sem a eucaristia. (...) Dito isto, arrisco em expressar o meu pensamento, que não é possível corresponder às sublimes finalidades de tão grande sacramento, a não ser atendendo àquela exortação: rogai ao Senhor da Messe para que envie operários à sua messe”.
Quanto mais Santo Aníbal aprofunda o mistério da eucaristia, cada vez melhor compreende que ela é a primeira e mais eficaz resposta ao mandamento de Jesus para rezar (Rogate) ao Dono da messe pelo dom dos bons operários. É a idéia-recurso, a oração rogacionista por excelência. A sua espiritualidade se fundamenta na celebração eucarística, entendida e vivida como resposta única e completa, eficaz e adequada ao mandamento do Rogate de Jesus Cristo.
É também o santíssimo sacramento que ilumina a sua vocação sacerdotal, que ele percebe como “improvisa, irresistível e certa”. Será a eucaristia – celebrada, adorada e contemplada ao longo dos dias e das noites –, a iluminar sua vida, a lhe indicar as escolhas que deve fazer e a lhe sustentar nas dificuldades. “A sua identidade vocacional desenvolve-se lá onde reside o princípio dinâmico do sacerdócio e da eucaristia e onde a Igreja tem sua origem: o coração eucarístico de Jesus”.
O íntimo relacionamento de Santo Aníbal com Jesus Cristo, presente na eucaristia, acentua-se – além do seu testemunho –, nos seus escritos, perfeitas projeções da sua espiritualidade. Basta percorrer as inúmeras orações a Jesus Sacramentado e, acima de tudo, os hinos do Primeiro de Julho, para perceber a sua fé no poder iluminador e santificante da eucaristia. A Grande Súplica – que elevamos ao Eterno Divino Pai diante da eucaristia, no santíssimo nome de Jesus, em 31 de janeiro de cada ano, segundo a tradição que nos deixou o Fundador –, é ação de graças pelos benefícios concedidos no ano que se encerra e, ao mesmo tempo, intercessão de graças para o novo ano que se inicia.
A eucaristia, mistério de luz, lembra-nos fortemente a verdade dos sinais manifestada em cada celebração da missa: da mesa da Palavra, que copiosamente deve ser oferecida aos fiéis para iluminar as mentes e aquecer os corações, à mesa eucarística, que deve abrir-se às dimensões do mistério sem ambigüidades ou reduções. Santo Aníbal, em consonância com a teologia do seu tempo, manifestou esta preocupação com o testemunho pessoal e com o ensinamento.
Consideremos tudo o que ele propôs às suas comunidades masculinas e femininas. Consideremos, também, o que prescreveu nas Quarenta Declarações aos Rogacionistas sacerdotes, tanto para uma frutuosa celebração do sublime mistério da santa missa – à qual se dá particular importância neste Instituto –, como para a pregação – que deve estar fundamentada na Sagrada Escritura e nas sentenças dos Santos Padres e dos Doutores. Como não lembrar, acima de tudo, da viva consciência da presença real de Cristo que Santo Aníbal manifestava na adoração eucarística, alimento contínuo da sua vida espiritual. Será sempre oportuno o retorno assíduo ao ensinamento e ao exemplo de Santo Aníbal e aos seus escritos.
2. Eucaristia: fonte e epifania de comunhão
A eucaristia para Santo Aníbal se manifesta também como fonte e epifania de comunhão. Acreditamos encontrar nesta dimensão a instituição da Festa Eucarística do Primeiro de Julho –pérola da espiritualidade, evento onde a identidade da Família do Rogate toma forma e consistência, que inicia o seu caminho na história como uma pequena caravana. Esta festa nasce do coração e da mente de Santo Aníbal com uma íntima e profunda consciência que é “a semente divina que desce nos nossos terrenos para fecundá-los, o rei do céu que reúne ao seu redor os seus súditos, o bom pastor que reúne o seu rebanho”. O Primeiro de Julho, fruto de sua sábia pedagogia, vivido e elevado à instituição, é memorial da presença de Jesus, que no sacramento do altar “se dignou morar no meio de nós”. A Família do Rogate, nos seus diversos componentes, encontra na eucaristia a fonte de sua existência, e a epifania e o alimento da sua comunhão.
Santo Aníbal manifesta a convicção de que no Primeiro de Julho Jesus Eucaristia toma posse da Obra, a cria na novidade do Espírito e se torna Divino Fundador. Ele afirma: “A fé e o amor ao Santíssimo Sacramento estabeleceram o início, o progresso e o desenvolvimento desta mínima Obra dos interesses do Coração de Jesus. Devemos dizer que Jesus Sacramentado é unicamente seu Fundador”. Portanto, a festa de Primeiro de Julho deverá ter certamente um relevo particular para nós. Procuraremos celebrá-la com o espírito autêntico de Santo Aníbal.
3. Eucaristia: princípio e projeto de missão
Finalmente, na experiência espiritual de Santo Aníbal, a eucaristia é também princípio e projeto de missão. Nesta terceira dimensão, podemos resumir tudo aquilo que dissemos até o momento. A eucaristia foi o espaço teológico e o princípio de onde brotou a sua vocação carismática. Ao mesmo tempo, constituiu o lugar onde ela se realizou e atingiu o seu ápice. Se para Santo Aníbal a eucaristia é princípio e fonte da sua missão, é, ao mesmo tempo, seu fim e cume.
O ícone exemplar rogacionista da eucaristia como princípio e projeto de missão é o Primeiro de Julho de 1886, dia da chegada definitiva de Jesus Sacramentado em Avinhão. Santo Aníbal considera que a maior caridade que os pobres necessitam é a presença de Jesus, que se realiza de maneira sacramental na eucaristia. As piedosas iniciativas organizadas naquela ocasião constituíram um autêntico projeto pastoral, no qual a preparação prolongada foi feita através da catequese e da reflexão aprofundada, da oração que gerou expectativa, da prática das virtudes e de vida moralmente renovada, da presença de Cristo em cada celebração, da adoração eucarística, ação de graças e oração rogacionista.
Mesmo que o Primeiro de Julho de 1886 já tenha sido um extraordinário acontecimento àquela região pobre e degradada de Messina, para Santo Aníbal a celebração deste evento, na sua evangélica simplicidade, supera o fato histórico e se torna uma pequena mas fundamental pedra na constituição da Obra.
Entrar em comunhão com Cristo no memorial da Páscoa significa, para Santo Aníbal, tornar-se missionário do Rogate. O compromisso eucarístico é o empenho da oração rogacionista. Uma oração que não se entrega a um espiritualismo desencarnado, mas que se abre aos problemas e necessidades que angustiam homens e mulheres. Entrando em relação com o divino Mestre, na adoração eucarística, Santo Aníbal adquiria maior consciência de sua missão.
4. Rogate e Eucaristia
Na escola de Jesus eucaristia, Santo Aníbal sentiu a urgência de se inserir no coração da história e assumir a miséria espiritual, moral e material do povo. Na exigência de conformar sua vida e ação à de Jesus Sacramentado, ele compreendeu toda a importância e significado da perícope rogacionista (Mt 9,35-38; Lc 10,2). “Visto com a ótica carismática, o Cristo Eucarístico, para Aníbal, identificava-se com o Cristo das multidões abandonadas sem pastor, com o Cristo dos pobres e necessitados de salvação”. Ele considerava extremamente incoerente rezar para obter bons operários para a messe sem ele próprio ser um bom operário, capaz de se doar sem reservas e sem medidas para o bem e a salvação dos irmãos necessitados.
Na eucaristia Santo Aníbal descobre e fundamenta a dimensão caritativa do Rogate. A eucaristia, de fato, é sacramento da caridade, testamento do amor de Deus à humanidade. Há um só modo com o qual as pessoas podem responder de maneira adequada a um amor tão grande: devem fazer-se também eucaristia, doar a própria vida aos irmãos.
Esta é a história de Santo Aníbal Maria Di Francia, homem profundamente apaixonado por Jesus, presente no sacramento do pão e também nos irmãos, especialmente, pobres e necessitados. Santo Aníbal inseriu-se em Avinhão para se tornar irmão de Francisco Zancone. O amor de Cristo contemplado na eucaristia torna-se para ele base e medida do amor ao próximo.
Percorrendo a história de vida de Santo Aníbal Maria, mais do que momentos e experiências particulares, colhe-se um modo de ser, pensar e agir que tem na eucaristia a chave interpretativa de suas opções e o princípio do seu agir, e faz dele uma “pessoa eucarística em toda a sua existência”.
* Texto extraído do livro Santo Aníbal e a Eucaristia (Coleção RogZelo, 05)
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